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Escore de cálcio coronariano: o que ele mostra, quando pode ajudar e o que um CAC zero não significa

Entenda quando o escore de cálcio coronariano pode ajudar, o que CAC zero significa e por que o resultado não substitui a avaliação do risco.

Um exame pode acrescentar informação sobre as artérias. O valor dessa informação depende da decisão que ela ajuda a tomar.

“Meu colesterol está normal. Isso significa que minhas artérias estão bem?” Não necessariamente. O exame de sangue não fotografa as artérias, e a avaliação do risco cardiovascular reúne informações diferentes. Isso também não significa que todas as pessoas precisem fazer uma tomografia. [1,2]

O que o CAC realmente mede

O escore de cálcio coronariano, conhecido pela sigla CAC, é obtido por uma tomografia sem contraste intravenoso. Ele quantifica calcificações nas placas das artérias que irrigam o coração, geralmente pelo método de Agatston. Não é uma dosagem de cálcio no sangue. [3,14]

O resultado informa sobre a parcela calcificada da aterosclerose coronariana. Não equivale à porcentagem de obstrução de uma artéria, não mostra todas as placas e não permite prever a data de um infarto. [4,14]

Essa distinção muda a leitura: um CAC de 200 não significa “200% de entupimento”, assim como um resultado zero não representa um certificado de artérias sem qualquer alteração.

Quando pode fazer diferença

O melhor ponto de partida não é “qual exame falta?”, mas “qual decisão ainda está incerta?”. Na prevenção de pessoas sem sintomas e sem doença cardiovascular clínica conhecida, o CAC pode ajudar quando a avaliação inicial deixa dúvida relevante sobre a intensidade da prevenção. [2,16]

Imagine uma conversa em que médico e paciente já discutiram os fatores de risco, mas ainda não sabem se uma informação adicional mudaria o plano. Antes de solicitar o exame, vale combinar o que seria feito diante de um resultado zero, positivo ou elevado. Se a resposta for a mesma em todos os cenários, é necessário reconsiderar sua utilidade.

Ter mais de 40 anos, isoladamente, não transforma o CAC em check-up obrigatório. Tampouco se deve adiar uma prevenção já indicada apenas para aguardar uma imagem. [1,9]

O que os números acrescentam no contexto brasileiro

A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 incorpora o CAC à estratificação do risco. Entre seus critérios, CAC acima de 100 unidades Agatston, ou acima do percentil 75 para idade e sexo, sinaliza alto risco; CAC acima de 300 integra a categoria de muito alto risco. A classificação completa considera também outras condições clínicas. [2]

Esses pontos de corte orientam decisões profissionais, não receitas automáticas. Percentil 75 é uma comparação com uma população de referência: não significa uma artéria 75% obstruída. Um escore pequeno em alguém jovem pode ter significado diferente do mesmo número em uma pessoa mais velha. [9]

Brasil e Estados Unidos não devem ser tratados como se tivessem tabelas intercambiáveis. O exame é o mesmo; o enquadramento nas recomendações locais precisa ser respeitado. [1,2]

CAC zero: uma boa notícia, com limites

Em coortes como o MESA, pessoas com CAC zero apresentaram, em média, menor incidência de eventos cardiovasculares do que aquelas com escores elevados. Trata-se de uma informação prognóstica útil, não de risco inexistente. [4]

Placas ainda não calcificadas podem estar presentes, especialmente em pessoas mais jovens. Diabetes, tabagismo, história familiar importante e alterações lipídicas graves podem manter a necessidade de prevenção mesmo com CAC zero. Não suspenda medicamentos por conta própria ao receber esse resultado. [3,9]

A pergunta adequada é: “o que este zero muda na minha avaliação?”, e não “o que posso deixar de cuidar?”.

CAC alto não significa cateterismo automático

Um resultado elevado merece avaliação e um plano consistente. Mas ele não demonstra, sozinho, uma obstrução que exija stent. Na ausência de sintomas clinicamente relevantes, não há indicação automática de teste de esforço ou angiografia invasiva baseada apenas em CAC alto. Aspirina também não deve ser iniciada por iniciativa própria: o potencial de sangramento precisa entrar na decisão. [9,16]

Dor ou pressão no peito, falta de ar súbita, suor frio ou mal-estar sugestivo de infarto exigem atendimento urgente. Um CAC anterior, inclusive zero, não deve atrasar essa avaliação. [13]

Radiação, repetição e acompanhamento

O exame utiliza radiação ionizante; a dose varia conforme equipamento, protocolo e paciente. Possibilidade de gravidez deve ser informada à equipe. Também é importante discutir custos e a possibilidade de achados que levem a novas avaliações. [3]

Não é um exame para repetir anualmente por rotina. Estudos sobre a evolução após CAC zero sugerem intervalos diferentes conforme o perfil, e a eventual repetição deve ter uma finalidade clínica definida. O termo “período de garantia”, usado em pesquisas, não significa garantia individual contra eventos. [5]

Outro cuidado: estatinas podem se associar a placas mais densamente calcificadas. Portanto, aumento do CAC durante o tratamento não comprova, isoladamente, falha terapêutica. Também não deve ser automaticamente considerado inofensivo: precisa ser interpretado no conjunto. [7]

O que a evidência sustenta — e o que não sustenta

A capacidade de separar grupos com riscos diferentes é bem documentada. Demonstrar que oferecer o exame indiscriminadamente reduz mortes é outra pergunta. No CAUGHT-CAD, publicado em 2025, uma estratégia preventiva informada pelo CAC reduziu a progressão de placas em uma população selecionada com história familiar; o desfecho principal foi de imagem, não mortalidade. [4,8]

O aprendizado prático é simples: o CAC pode qualificar uma decisão, mas não substitui o cuidado que vem depois dela.

Antes da consulta, anote: qual decisão está em aberto; quais resultados antigos você tem; se há sintomas; e o que espera esclarecer. Mais importante do que reunir números é compreender como eles se conectam.

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Evidência antes do modismo. Compreensão antes da ação.

Conteúdo educacional. Não substitui avaliação individual nem orienta iniciar, suspender ou ajustar medicamentos.

Referências

[1] Blumenthal RS, Morris PB, Gaudino M, et al. 2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia. Circulation. Publicação em 13 de março de 2026. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001423. Fonte: https://professional.heart.org/en/science-news/2026-guideline-on-the-management-of-dyslipidemia/top-things-to-know

[2] Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250640. DOI: 10.36660/abc.20250640. Fonte: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12674852/

[3] American College of Radiology / Radiological Society of North America Cardiac CT for Calcium Scoring. RadiologyInfo.org. Revisão indicada na página: 15 de julho de 2026. Fonte: https://www.radiologyinfo.org/en/info/ct_calscoring

[4] Budoff MJ, Young R, Burke G, et al. Ten-year association of coronary artery calcium with atherosclerotic cardiovascular disease (ASCVD) events: the multi-ethnic study of atherosclerosis (MESA). Eur Heart J. 2018;39(25):2401–2408. DOI: 10.1093/eurheartj/ehy217. Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29688297/

[5] Dzaye O, Dardari ZA, Cainzos-Achirica M, et al. Warranty Period of a Calcium Score of Zero: Comprehensive Analysis From MESA. JACC Cardiovasc Imaging. 2021;14(5):990–1002. DOI: 10.1016/j.jcmg.2020.06.048. Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33129734/

[7] van Rosendael AR, van den Hoogen IJ, Gianni U, et al. Association of Statin Treatment With Progression of Coronary Atherosclerotic Plaque Composition. JAMA Cardiol. 2021;6(11):1257–1266. DOI: 10.1001/jamacardio.2021.3055. Fonte: https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/fullarticle/2783117

[8] Nerlekar N, Vasanthakumar S, Whitmore K, et al. Effects of Combining Coronary Calcium Score With Treatment on Plaque Progression in Familial Coronary Artery Disease: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2025;333(16):1403–1412. DOI: 10.1001/jama.2025.0584. Fonte: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2831115

[9] Orringer CE, Blaha MJ, Blankstein R, et al. The National Lipid Association scientific statement on coronary artery calcium scoring to guide preventive strategies for ASCVD risk reduction. J Clin Lipidol. 2021;15(1):33–60. Publicação on-line em 2020. DOI: 10.1016/j.jacl.2020.12.005. Fonte: https://www.lipidjournal.com/article/S1933-2874%2820%2930342-1/fulltext

[13] American Heart Association Warning Signs of a Heart Attack. Recurso oficial para o público. Consultado em 19 de setembro de 2026. Fonte: https://www.heart.org/en/health-topics/heart-attack/warning-signs-of-a-heart-attack

[14] Blaha MJ, Mortensen MB, Kianoush S, Tota-Maharaj R, Cainzos-Achirica M Coronary Artery Calcium Scoring: Is It Time for a Change in Methodology?. JACC Cardiovasc Imaging. 2017;10(8):923–937. DOI: 10.1016/j.jcmg.2017.05.007. Fonte: https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jcmg.2017.05.007

[16] Arnett DK, Blumenthal RS, Albert MA, et al. 2019 ACC/AHA Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease. J Am Coll Cardiol. 2019;74(10):e177–e232. DOI: 10.1016/j.jacc.2019.03.010. Fonte: https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2019.03.010

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